Casa de Palavras
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
  Tiroteios sempre mas ontem nenhuma bala perdida

Escher


É parte das manhãs
preparar um sanduiche
com pasta de soja, folhas verdes
(o que tiver de mais saudável
se houver algo assim em casa)
no banho mesmo, escovar os dentes
sair apressada (as vezes antes até
de acordar de verdade)
correndo ir trabalhar


entre os goles de café expresso pingado
devorar o sanduiche, alguma fruta - talvez
ver e-mails, responder todos são urgentes
checar a agenda de cada dia
marcar videoconferências
(às dez horas ligar para meu pai)


09h00 e a manhã parece imensa
09h30min já não lembro tudo que fiz até agora
09h45min já desviei de algumas balas perdidas
mas as tarefas, muitas para ontem
já acertaram meu estômago
todo esse lixo, esse estresse
da internética vida moderna
em tempo real já tingiu
todos os segundos
(vividos?)
de pixels


10h05min lembrei de ligar para meu pai
ele parece feliz porque saiu de casa
estranho mas ele conta animado
que foi ao banco sozinho hoje
provavelmente para ver o rombo
que as despesas extras fizeram
em sua devedora conta bancária
- pergunto se precisa de dinheiro
- diz que falaremos disso depois

(penso que ele parecia bem
esse pequeno gesto de voltar
a administrar a escassez de dinheiro
que a aposentadoria lhe impôs
não o aborreceu esta manhã)


10h10 chegam três rapazes para trocar
lâmpadas de calhas luminárias apagadas
com eles um enorme alvoroço
de pombos nas praças
em volta de comida
entre risos e piadas
assim trabalham
- felizes?


de repente lembro de meu gato
quando começou a ficar velho:
primeiro perdeu os caninos
depois fez amizade
com a falta de visão
tornou-se ainda mais
silencioso
parecia um fantasma
procurando espaços
escuros na casa
como se lá
não fizesse diferença
ver pouco ou nada
do que acontecia
a sua volta


11h00 em ponto
e o pessoal da manutenção
deu por encerrado o trabalho:
das três calhas apagadas
apenas uma estava acesa
voltariam mais tarde
para troca de reatores
saíram exatamente
na hora do almoço
no bandejão


18h38min de amanhã
preciso muito escrever
(mais de 24 horas depois
da última linha de ontem
- what a diference a day made? -
twenty four little hours)


escrevo
agora em golfadas
porque estava sufocando
não pelo ar que me faltava
nem pela mão invisível apertando
minha garganta inerte de hoje
foram tantos telefonemas
e resta apenas silêncio
dentro e fora de mim
vazios falam?
abismos


reflito poucos segundos
nessa ausência de canto
essa falta de lágrimas
a migalha humana
que se esmaga
por tão pouco


ao final de mais um dia
contemplo paredes
vazias, não
me abrigam mais
silêncios


grito
muda
como um verme

Carol Timm
 
Comentários:
Poema do real... passo a passo... hora a hora... um quase diário poético.
 
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AQUI É O LUGAR ONDE MEUS POEMAS, PROSAS E ALGUNS PENSAMENTOS VIVEM A ESPERA DO LEITOR...

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Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Não sei bem quem sou, mas me procuro pelo caminho... Não tenho pressa, contemplo a paisagem, vou bem devagarinho. Se quiser me acompanhar, não mais irei só, pego tua mão com carinho. Sinta-se em casa e me diga: aceita um chá ou prefere um cafezinho?
Comecei na blogosfera com a CASA DE PALAVRAS – que me tem trazido gratas surpresas, alguns bons amigos. Mas logo senti que haviam textos de outros autores que eu gostaria muito de divulgar, aí surgiu a CASA DE LEITURA. Recentemente tive vontade de mostrar meus textos para crianças, foi assim que nasceu a CASINHA DE BRINQUEDO. Espero sua visita e se deixar uma opinião, um bilhetinho vou ficar ainda mais contente...
"O Homem é do tamanho do seu sonho."
Fernando Pessoa
"O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face."
Mario Quintana
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